Ficou surdo e disseram que o barulho 'não passava do limite'? A culpa pode ser dos produtos químicos

Aviso: conteúdo informativo. Cada caso depende de perícia e da análise dos seus documentos.
O perito mediu o barulho, deu “abaixo do limite”, e o seu pedido foi negado. Para muita gente, a história acaba aí, com a sensação de que perdeu a audição à toa e ainda ficou sem direito nenhum. Mas, em muitos casos, não acabou.
Existe um detalhe que costuma passar despercebido: a surdez do trabalho nem sempre vem só do barulho. Vários produtos químicos também atacam a audição e, junto com o ruído, fazem um estrago bem maior. Se havia química no seu ambiente, o seu “não” merece um segundo olhar.
O ponto que quase sempre é esquecido
Quando o assunto é perda de audição no trabalho, quase todo mundo olha só para o barulho: mediu, comparou com o limite e pronto. O problema é que essa conta ignora os agentes ototóxicos: produtos químicos que lesionam o ouvido por dentro.
E tem um fato que muda tudo: químico + barulho juntos causam mais perda do que cada um sozinho, e isso acontece mesmo quando o ruído está abaixo do limite legal. Ou seja, aquele “84 decibéis, abaixo do limite” pode, sim, ter ensurdecido você, porque não estava sozinho.
Não é teoria: são números
Um estudo brasileiro com metalúrgicos comparou os dois grupos: entre os expostos só ao ruído, a perda auditiva aparecia em 3,6% a 6%; entre os expostos a ruído + produtos químicos, o número pulava para 15,5% a 18,3%, quase três vezes mais. Órgãos internacionais de saúde do trabalho (como o NIOSH e a OSHA, dos Estados Unidos) reconhecem o mesmo: os ototóxicos agravam a perda auditiva pelo ruído, inclusive abaixo do limite.
Será que era o seu ambiente?
Veja se algum desses produtos fazia parte do seu dia a dia:
| Se você trabalhava com… | …então havia risco químico |
|---|---|
| Tinta, verniz, cola, thinner | Pintores, gráficas, sapateiros, marcenaria, funilaria |
| Plástico ou fibra de vidro | Caixas-d’água, barcos, piscinas (estireno) |
| Desengraxe de peças / solventes | Metalúrgicas e oficinas |
| Solda e fundição | Soldadores e siderúrgicas (manganês, monóxido de carbono) |
| Baterias, tipografia, reciclagem | Exposição a chumbo |
| Garimpo, lâmpadas, instrumentos | Exposição a mercúrio |
| Lavoura e defensivos | Agrotóxicos |
Reconheceu o seu trabalho? Então a sua perda de audição pode ter mais de uma causa, e o laudo que olhou só para o barulho contou meia história.
Foi negado porque "o ruído não passava do limite"? Se havia química no ambiente, vale revisar.
Quero revisar o meu casoFui negado. Ainda dá pra fazer alguma coisa?
Na maioria das vezes, sim. A perda auditiva causada pelo trabalho é uma doença ocupacional, e, para a lei, doença do trabalho é acidente de trabalho (art. 20 da Lei 8.213/91). O caminho é pedir um novo olhar sobre o caso, agora incluindo a exposição química:
- Reunir o histórico dos produtos com que você trabalhava (tintas, solventes, metais);
- Juntar as suas audiometrias: se mostram a audição caindo ao longo dos anos, ajudam a provar a ligação com o trabalho;
- Pedir uma perícia que considere os ototóxicos, e não apenas o barulho;
- Avaliar o reconhecimento como acidentário: é ele que destrava a estabilidade no emprego, o FGTS e a indenização.
Sobre prazo: na esfera trabalhista, dá para cobrar os últimos 5 anos (e até 2 anos depois de sair da empresa). Por isso, quanto antes a análise, melhor.
E o que esse “segundo olhar” pode te garantir
Reconhecida a origem no trabalho, abre-se o mesmo leque de direitos da perda auditiva ocupacional: auxílio-acidente, estabilidade no emprego, FGTS no afastamento, indenização por danos morais e até aposentadoria. Cada um deles está explicado aqui:
Veja todos os direitos que uma surdez do trabalho pode abrir.
PAIR: a surdez do trabalho e seus direitos →E não para na audição: se havia produto químico no seu trabalho, ele também pode contar como tempo especial para a aposentadoria e gerar adicional de insalubridade no salário, direitos que somam.
Um “não” não é o fim
Perder a audição já é duro demais. Levar um “indeferido” em cima disso, por causa de um número de barulho que contou só metade da verdade, é mais duro ainda. Mas um laudo incompleto pode ser revisto. Se a sua vida de trabalho teve barulho e produto químico, a sua audição (e os seus direitos) merecem um segundo olhar, feito com calma e com técnica. É isso que a gente faz.