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Insalubridade

Ficou surdo e disseram que o barulho 'não passava do limite'? A culpa pode ser dos produtos químicos

14 de junho de 2026 · por Maiara Krug

Ficou surdo e disseram que o barulho 'não passava do limite'? A culpa pode ser dos produtos químicos

Aviso: conteúdo informativo. Cada caso depende de perícia e da análise dos seus documentos.

O perito mediu o barulho, deu “abaixo do limite”, e o seu pedido foi negado. Para muita gente, a história acaba aí, com a sensação de que perdeu a audição à toa e ainda ficou sem direito nenhum. Mas, em muitos casos, não acabou.

Existe um detalhe que costuma passar despercebido: a surdez do trabalho nem sempre vem só do barulho. Vários produtos químicos também atacam a audição e, junto com o ruído, fazem um estrago bem maior. Se havia química no seu ambiente, o seu “não” merece um segundo olhar.

O ponto que quase sempre é esquecido

Quando o assunto é perda de audição no trabalho, quase todo mundo olha só para o barulho: mediu, comparou com o limite e pronto. O problema é que essa conta ignora os agentes ototóxicos: produtos químicos que lesionam o ouvido por dentro.

E tem um fato que muda tudo: químico + barulho juntos causam mais perda do que cada um sozinho, e isso acontece mesmo quando o ruído está abaixo do limite legal. Ou seja, aquele “84 decibéis, abaixo do limite” pode, sim, ter ensurdecido você, porque não estava sozinho.

Não é teoria: são números

Um estudo brasileiro com metalúrgicos comparou os dois grupos: entre os expostos só ao ruído, a perda auditiva aparecia em 3,6% a 6%; entre os expostos a ruído + produtos químicos, o número pulava para 15,5% a 18,3%, quase três vezes mais. Órgãos internacionais de saúde do trabalho (como o NIOSH e a OSHA, dos Estados Unidos) reconhecem o mesmo: os ototóxicos agravam a perda auditiva pelo ruído, inclusive abaixo do limite.

Será que era o seu ambiente?

Veja se algum desses produtos fazia parte do seu dia a dia:

Se você trabalhava com……então havia risco químico
Tinta, verniz, cola, thinnerPintores, gráficas, sapateiros, marcenaria, funilaria
Plástico ou fibra de vidroCaixas-d’água, barcos, piscinas (estireno)
Desengraxe de peças / solventesMetalúrgicas e oficinas
Solda e fundiçãoSoldadores e siderúrgicas (manganês, monóxido de carbono)
Baterias, tipografia, reciclagemExposição a chumbo
Garimpo, lâmpadas, instrumentosExposição a mercúrio
Lavoura e defensivosAgrotóxicos

Reconheceu o seu trabalho? Então a sua perda de audição pode ter mais de uma causa, e o laudo que olhou só para o barulho contou meia história.

Foi negado porque "o ruído não passava do limite"? Se havia química no ambiente, vale revisar.

Fui negado. Ainda dá pra fazer alguma coisa?

Na maioria das vezes, sim. A perda auditiva causada pelo trabalho é uma doença ocupacional, e, para a lei, doença do trabalho é acidente de trabalho (art. 20 da Lei 8.213/91). O caminho é pedir um novo olhar sobre o caso, agora incluindo a exposição química:

  • Reunir o histórico dos produtos com que você trabalhava (tintas, solventes, metais);
  • Juntar as suas audiometrias: se mostram a audição caindo ao longo dos anos, ajudam a provar a ligação com o trabalho;
  • Pedir uma perícia que considere os ototóxicos, e não apenas o barulho;
  • Avaliar o reconhecimento como acidentário: é ele que destrava a estabilidade no emprego, o FGTS e a indenização.

Sobre prazo: na esfera trabalhista, dá para cobrar os últimos 5 anos (e até 2 anos depois de sair da empresa). Por isso, quanto antes a análise, melhor.

E o que esse “segundo olhar” pode te garantir

Reconhecida a origem no trabalho, abre-se o mesmo leque de direitos da perda auditiva ocupacional: auxílio-acidente, estabilidade no emprego, FGTS no afastamento, indenização por danos morais e até aposentadoria. Cada um deles está explicado aqui:

Veja todos os direitos que uma surdez do trabalho pode abrir.

PAIR: a surdez do trabalho e seus direitos →

E não para na audição: se havia produto químico no seu trabalho, ele também pode contar como tempo especial para a aposentadoria e gerar adicional de insalubridade no salário, direitos que somam.

Um “não” não é o fim

Perder a audição já é duro demais. Levar um “indeferido” em cima disso, por causa de um número de barulho que contou só metade da verdade, é mais duro ainda. Mas um laudo incompleto pode ser revisto. Se a sua vida de trabalho teve barulho e produto químico, a sua audição (e os seus direitos) merecem um segundo olhar, feito com calma e com técnica. É isso que a gente faz.

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